Artigo: Futebol arte versus futebol tático: uma abordagem sobre os motivos que fizeram com que o Brasil perdesse a hegemonia do futebol para escolas que adotam a disciplina tática como padrão de jogo

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FMU

CPPG – Centro de Pesquisa e Pós-Graduação

Guilherme Derrico

 Futebol arte versus futebol tático: uma abordagem sobre os motivos que fizeram com que o Brasil perdesse a hegemonia do futebol para escolas que adotam a disciplina tática como padrão de jogo.

Trabalho apresentado ao curso de Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte, sob orientação do Prof. Ms. Rodrigo Viana

                   

São Paulo

2013

Jornalista.

guilhermederrico@hotmail.com

Declaro que esse artigo é inédito e feito

com base em minhas pesquisas e orientações

do professor citado.

RESUMO

A queda de produtividade do futebol brasileiro é notória. Este artigo tem por finalidade encontrar os motivos dessa decadência e, ao mesmo tempo, fazer uma comparação com o jogo apresentado pela seleção da Espanha, que é a sensação do momento e utiliza a disciplina tática como seu ponto forte. O objetivo é mostrar as falhas na preparação dos jogadores na base e apontar as possíveis soluções para que o Brasil reconquiste a hegemonia no futebol mundial. Para isso, a coleta de dados foi feita no período de agosto a dezembro de 2012. Nosso corpus de pesquisa foram os programas de televisão ‘Linha de Passe’ e ‘Bate-Bola’, que são exibidos pelo canal de TV a cabo ESPN Brasil, leitura de blogs e artigos postados na Internet escrito pelos profissionais da emissora, tais como Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho, Fernando Calazans, Márcio Guedes, entre outros, além de informações retiradas de livros. A conclusão dessa pesquisa vai colaborar para uma reflexão dos amantes do chamado ‘futebol arte’ sobre os motivos da decadência técnica na qualidade do jogo e, com sorte, sensibilizar os profissionais diretamente envolvidos no futebol brasileiro para que mudem alguns conceitos no método de trabalho.

PALAVRAS-CHAVE: Futebol, Arte, Brasileiro, Espanhol, Brasil, Espanha.

1.     Da década de 1950 até os dias atuais: um balanço sobre a queda de produtividade do futebol brasileiro

O futebol brasileiro, que sempre foi taxado como sendo o melhor futebol do mundo (futebol arte), aquele que revela craques a cada ano, já não é mais o mesmo. Bastar ver a posição alcançada pela seleção brasileira no ranking da Fifa em julho de 2012: décima primeira 11ª colocação, atrás de escolas futebolísticas como Dinamarca e Croácia. A Espanha (futebol tático) lidera com folga, e a seleção alemã é a que mais se aproxima dos atuais campeões da Eurocopa.

Para melhor entendimento vale definir os dois estilos de jogo. Estamos chamando de ‘Futebol Arte’ um jogo bonito, que encanta o torcedor, aquele que mistura o improviso com belos gols. Lances como o chapéu[1], rolinho[2], drible da vaca[3], entram nesse contexto. Já o Futebol Tático (ou disciplina tática) é um estilo mais atual, praticado pelos europeus. Cada jogador tem uma função em campo, que deve ser cumprida a risca. Esses atletas são muito bem preparados fisicamente, para que aguentem correr o campo todo e consigam cumprir as metas propostas pelo treinador do time. “E o futebol de resultados que, como sempre, vez por outra, dá o ar de sua graça, seguirá assim, aparecendo aqui ou ali”, (KFOURI, 2012[4]).

A seleção da Espanha pratica atualmente uma mistura dos dois estilos. Seus jogadores são bastante técnicos, abusam dos toques rápidos, de primeira (quando um jogador dá o passe sem parar a bola, toca assim que a recebe), e valorizam a posse de bola. Eles não se incomodam em trocar passes. Fazem isso com calma, até achar um espaço para chegar ao gol do adversário. Porém, toda essa técnica não deve ser confundida com habilidade. Essa sim alegrava a torcida brasileira que, desde a conquista da primeira Copa do Mundo, em 1958, se acostumou a assistir jogadores habilidosos representando a nação. “A de 58 (seleção) foi melhor simplesmente porque tinha Pelé e Garrincha juntos. Na minha visão, eles foram os melhores jogadores que o mundo já viu em campo”, (KFOURI, 2012[5]).

Como o mundo está sempre em evolução, a Espanha executa o que pode ser considerado um jogo moderno. No entanto, o jogador Iniesta, meio campista do Barcelona e da seleção espanhola, sabe que a força do seu clube, que une jogadores de muita qualidade, ajuda o desempenho de cada um em campo. “Estou no melhor lugar que poderia estar”, (INIESTA, 2013[6]).

Segundo o jornalista Juca Kfouri, a Espanha está cada vez mais chata, pois ganha de todos os adversários que ousam desafiá-la. Em seu blog, ele cita, em especial, a final da Euro de 2012, quando os espanhóis enfrentaram a seleção italiana. Por mais que a Itália tentasse, suas ações em campo não tiveram êxito, e foram goleados por 4 a 0 pela nova sensação do futebol mundial. “A Itália fez o que pôde e não foi pouco, mas o time espanhol tem a chatíssima mania de ganhar tudo, seja em seu continente, seja pelo mundo afora”, (KFOURI, 2012[7]).

No programa de televisão ‘Linha de Passe’, exibido pela ESPN Brasil, emissora de TV a cabo, todas as segundas-feiras, o time de comentaristas formado por Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho, Fernando Calazans, Márcio Guedes, entre outros, o tema é debatido com frequência. Como toda democracia, as opiniões divergem, mas são respeitadas por todos. Paulo Vinícius Coelho, o PVC, tem uma visão diferente do que aconteceu na final da Eurocopa. “O placar faz parecer que a Espanha atropelou o tempo todo, e não foi assim. A Itália fez um bom primeiro tempo. Quando perdeu Thiago Motta e ficou com um jogador a menos em campo, a coisa piorou”, (COELHO, 2012[8]).

Outras mídias abrem espaço para discutir o tema. No programa ‘Bate-Bola’, também da ESPN Brasil, em blogs e artigos postados na Internet pelos jornalistas já citados, é possível encontrar diversas citações, textos, e opiniões pessoais comentando sobre a atual fase da seleção espanhola.

Os técnicos brasileiros, que em sua maioria foram jogadores profissionais em épocas passadas e conviveram com o chamado ‘futebol arte’, poderiam criar uma maneira de trazer essa magia de volta aos gramados.

Um exemplo de treinador que ‘respirava’ o futebol bem jogado foi Telê Santana. O ‘mestre’, como era chamado pelos amantes do esporte, faleceu em 2006, mas seu legado permanece vivo na memória dos torcedores brasileiros. Como jogador, atuou com sucesso pelo Fluminense, seu clube de coração. Já como técnico teve passagens vitoriosas pelo próprio Fluminense, além de Atlético Mineiro, Grêmio, Flamengo e São Paulo.

Pela equipe do Morumbi, Telê virou ídolo e é reverenciado até hoje pelos torcedores do tricolor. Colecionou títulos e ajudou a colocar na galeria de troféus do clube a Copa Intercontinental de 1992 e 1993, a Copa Libertadores da América também de 1992 e 1993, a Supercopa Libertadores em 1993, Recopa Sul-americana em 1993 e 1994, um Campeonato Brasileiro em 1991, além de dois Campeonatos Paulistas, vencidos em 1991 e 1992.

Comandou também a seleção brasileira nas Copas de 1982 e 1986. O time escalado para disputar o primeiro mundial da sua carreira é considerado pelos saudosistas, mesmo após a derrota histórica para a Itália de Paolo Rossi, como um dos maiores de todos os tempos, tendo estrelas do porte de Falcão, Junior, Zico e Sócrates como destaque.

Em entrevista dada dois meses antes do segundo título Mundial no Japão ao jornal da torcida Dragões da Real, em outubro de 1993, o treinador se dizia feliz pelo momento em que o futebol brasileiro passava. “O futebol brasileiro melhorou muito de três anos para cá, novos talentos surgiram e o futebol teve uma grande ascensão”, (SANTANA, 1993[9]).

Como participaram desse período de glória, ninguém melhor que eles para ensinar os futuros atletas, desde sua formação na base, a praticarem um jogo vistoso, aliando o jogo bonito ao objetivo. Neymar, atleta do Santos, é o que mais se assemelha a ídolos do passado, como Pelé, Garrincha, Rivellino, verdadeiros ícones do futebol arte.

Vejo aqui, em nosso futebol, jovens jogadores desatinados sendo expulsos pelo vermelho ou suspensos pelos amarelos, em situações pueris, tolas, de absoluta falta de educação, falta de formação e, sobretudo, falta de inteligência. E fico muito ressabiado por não ver treinadores, supervisores, diretores e demais cartolas nem um pouco decididos a acabar com essa, digamos, burrice, essa incivilidade, essa deseducação, ou pelo menos reduzi-la. Acho que tampouco eles, cartolas, diretores e treinadores, notam os prejuízos causados aos clubes e aos times desses clubes (CALAZANS, 2012[10]).

Resgatando essa mentalidade de unir talento e conquistas, o futebol brasileiro poderá, enfim, voltar a merecer o respeito dos adversários.

2.     Estudo propõe reflexão aos amantes do esporte

Este estudo busca o entendimento sobre o futebol praticado no Brasil da década de 50 até os dias de hoje. O esporte, que é considerado o mais popular do País, atualmente está no 19º lugar no ranking da Fifa, pior colocação desde que o quadro foi criado. A seleção brasileira ficou atrás de Equador, Rússia, Costa do Marfim, Grécia, México e Bélgica, entre outros, equipes que não fazem parte do primeiro escalão futebolístico mundial.

No dia 11/04/2013, data em que foi divulgada a nova posição brasileira, os portais de internet deram bastante atenção para a notícia. Os sites do UOL e da Folha de S. Paulo publicaram a reportagem, que gerou diversos comentários dos navegantes com críticas ao time do técnico Luis Felipe Scolari.

O futebol praticado no Brasil era considerado mágico (58, 62, 70 e 82), objeto de desejo de outros países, que apreciavam o estilo brasileiro de jogar e sonhavam em aprender com seus ídolos. O panorama atual é bem diferente: a Espanha, atual campeã mundial, agora é quem leva a coroa de melhor futebol. O Brasil cai de posição no Ranking da Fifa a cada nova divulgação. Para entender os motivos da queda de produção no jeito de atuar dos brasileiros, vamos aprofundar o assunto, com base em informações levantadas através de livros, programas esportivos e notícias postadas na Internet.

O Brasil, que é detentor de cinco títulos mundiais, está perdendo espaço para seleções com menos prestígio internacional, em especial, a seleção da Espanha. Reconhecido pelo ‘futebol arte’, o que se viu nas últimas duas décadas foi um jogo defensivo, com os jogadores improvisando cada vez menos.

3.     Disciplina tática e o chamado ‘futebol arte’ podem caminhar juntos?

O futebol brasileiro passa por uma fase difícil. É um erro querer se comparar ao jogo praticado pelos estrangeiros, que são bastante disciplinados taticamente. Muitos treinadores estão se preocupando em adotar esse estilo, porém, o improviso, a ginga dos atletas, é o que tornou o Brasil uma potência nesse esporte.

O Corinthians, time paulista, que possui uma das maiores torcidas do Brasil, adotou esse estilo de jogo desde que o técnico Tite assumiu o cargo pela segunda vez, em 2010. Após ter a permanência bancada pelo então presidente Andrés Sanchez, quando o clube foi eliminado da Libertadores pelo modesto Tolima, da Colômbia, começou a nova era de Tite no Parque São Jorge.

Atualmente, o elenco conta com jogadores esforçados, que correm o tempo todo, marcam bastante, e seguem à risca a disciplina tática imposta pelo treinador nos treinamentos. Sem contar com estrelas, o clube conquistou títulos importantes jogando dessa forma, como o Campeonato Brasileiro de 2011, e a Libertadores e o Mundial de Clubes em 2012.

Em entrevista ao site IG, Tite revelou o desejo de quebrar uma escrita do futebol brasileiro, pois, sempre quando resultados ruins acontecem, a tendência é que os clubes demitam seus treinadores para tentar mudar o ambiente de trabalho. “O projeto é de permanecer sim, para quebrar essa cultura do futebol brasileiro, mas vamos deixar as etapas acontecerem”, (TITE, 2013[11]).

4.     O papel da imprensa na exposição do craque

Para a maioria dos cronistas esportivos e de grande parte da opinião pública, a safra de jogadores é um problema. Atualmente, o único futebolista considerado fora de série é o atacante Neymar, do Santos. Entretanto, trata-se de um jovem, que ainda tem muito o que amadurecer. Basta ver suas atuações nos jogos pela seleção. Em nenhum deles o atleta teve uma atuação sequer parecida com o que está acostumado a fazer em seu clube.

A imprensa faz um papel que, nem sempre, é considerado ético, pois se contradiz nas críticas e ajuda na superexposição do atleta. Casos como do inglês David Beckham e do português Cristiano Ronaldo são bons exemplos. Além de comentar as atuações dos citados em campo, a mídia brasileira e internacional adora dar espaço para suas vidas pessoais, com comentários sobre suas idas e vindas em festas, relacionamento amoroso e comerciais de produtos de diferentes marcas e finalidades.

Aqui no Brasil, Neymar caminha para o mesmo lado. Sua vida pessoal é agitada, e a mídia não perde a chance de exercer o jornalismo de fofoca – se é que podemos chamar essa conduta de jornalismo – para afirmar que suas atuações têm ou não a ver com o que faz fora de campo.

Segundo o jornalista Leandro Quesada, as pessoas se interessam pelos detalhes da vida pessoal dos famosos. “Faz parte da fama ser alvo do interesse público. As pessoas querem saber o que Neymar faz quando não está em campo driblando e marcando gols, quem ele namora, onde se veste e qual é a cor da tinta no cabelo”, (QUESADA, 2013[12]).

Essa conduta é chamada de Infotenimento, que, segundo o livro INFOtenimento, de Fabia Angelica Dejavitte, trata-se de passar a informação ao público aliada ao entretenimento. A autora acredita que esse estilo de jornalismo ajuda a prestar um serviço ao leitor. “O conteúdo editorial fornece informação e entretenimento ao leitor e, ao mesmo tempo, constitui uma prestação de serviço[13]”, (DEJAVITTE, 2006).

Mas, afinal, o que é ética no Jornalismo Esportivo? Segundo o jornalista LuisPeazê, afirma que a busca pela audiência está fazendo com que os profissionais do ramo percam a linha em relação às suas colocações.

Talvez seja a contenda por audiência, entre as equipes de coberturas de veículos concorrentes; talvez seja a diferença de preparação e aparelhamento profissional de umas equipes em relação a outras; talvez seja a vivência longeva dessas duas circunstâncias verídicas dos repórteres e jornalistas de redação, ou estúdio; ou talvez seja o simples esquecimento do que seja a ética normativa, ou ética de um modo geral. (PEAZÊ, 2010[14]).

A mentalidade do futebol brasileiro deve ser mudada, com treinadores corajosos, que implementem o estilo ‘futebol arte’ novamente e não se preocupem em ganhar títulos na base. Já faz algum tempo que os técnicos brasileiros se preocupam em revelar jogadores fortes, altos, que aguentem um estilo de jogo mais agressivo. Penso que essa prática é ruim, pois o futebol arte sempre teve jogadores leves e franzinos como destaques, aqueles que pensam, que colocam a bola onde bem entendem, sem precisar usar a força. Os fundamentos devem ser treinados à exaustão na base. O atleta só deve subir para o profissional quando todos os fundamentos básicos, como passes e chutes, estiverem bem apurados.

A volta do camisa 10 cerebral – aquele jogador que distribui as bolas no meio de campo e pensa o jogo como nenhum outro – é uma possível solução, o passo inicial para a retomada da hegemonia brasileira no futebol mundial. O ex-jogador Zico, eterno ídolo do Flamengo e maior camisa 10 que já passou pelo time rubro-negro, cita que sua vida mudou após um jogo treino contra o modesto time do Everest, do Rio de Janeiro. A partida terminou em 4 a 3 a favor do Mengão e Zico marcou dois gols, porém, essa não foi a maior conquista daquele confronto, e sim a descoberta do então garoto recém chegado ao Flamengo de que tinha um dom para ocupar o meio-campo e organizar as jogadas como nenhum outro atleta do elenco.

Até hoje me lembro de cada lance daquele jogo. Se eu fechar os olhos, ainda revivo as jogadas. E tudo isso ficou tão marcado porque me entreguei ao máximo àqueles noventa minutos, porque alguma coisa dentro de mim me dizia que estava decidindo minha vida ali… Acho que a minha cabeça detonou ali e não parou mais. Foi quando me dei conta de que o que eu mais fazia dentro de campo era pensar. Pensar como estava meu time, pensar cada jogada, pensar nas fraquezas que o adversário demonstrava e como poderíamos aproveitá-las… Pensar… em tudo, o tempo todo. Eu acabo uma partida mais cansado da cabeça do que das pernas (ZICO citado por RIBEIRO, André; LEMOS, Vladir, 2006, [15]).

Desses dados, podemos concluir que, atualmente, o jogador de futebol é mais que um simples esportista, é um produto bastante rentável para as grandes marcas. O próprio Neymar, citado nesse artigo, é um bom exemplo disso. Além dos compromissos com o Santos, clube que atua como atleta profissional, ele participa de vários comerciais de televisão, fato que gera muitas discussões na mídia esportiva. Alguns personagens importantes inseridos no contexto do futebol afirmam que esse tipo de conduta pode fazer com que ele desvie o foco do seu objetivo principal, que é o de jogar bola.

O treinador Pep Guardiola é um dos que não concordam com o marketing que gira em torno de Neymar. Na decisão do Mundial de Clubes de 2011 entre Santos e Barcelona, o técnico do time catalão comparou a exposição que é feita sobre Messi e o atleta do clube brasileiro. “Olhe para Messi, melhor jogador do mundo, talvez da história. E, ainda assim, apenas Messi”, (GUARDIOLA, 2012[16]).

5.     Brasil pode voltar a ser o País do futebol

Mostrar que o futebol arte, aliado a uma disciplina tática, pode voltar a ser executado no Brasil e que, através dessa prática, a seleção brasileira tem condições de retomar o posto de melhor do mundo é um dos objetivos deste conteúdo escrito.

Cinco vezes campeã do mundo, a seleção brasileira sempre impôs respeito aos adversários. No momento, esse respeito está se perdendo, pois a cada jogo, inclusive contra seleções sem nenhum prestígio internacional, as atuações fracas estão manchando a imagem do futebol arte. Através da exibição de dados concretos, tais como a maneira com que cada treinador comanda sua equipe, a exposição dos jogadores na mídia, o problema na gestão da base e a adesão do estilo europeu de jogar por clubes de todo o mundo, este artigo tem como um dos objetivos específicos gerar discussões e reflexões sobre a queda da hegemonia do Brasil no futebol global.

Encontrar possíveis soluções para esse problema também é uma das intenções do autor. Falta de treinamento dos fundamentos básicos do jogo, como passe, chute, cabeceio e marcação, pode ser um dos motivos do baixo rendimento nas últimas duas décadas.

O técnico Paulo Autuori falou um pouco sobre o assunto em entrevista dada para o jornal O Globo, no dia 31/03/2013, e que foi publicada por Juca Kfouri em seu blog. “Como somos os melhores do mundo, se os estádios estão sempre vazios, o calendário é péssimo e não temos organização?”, (AUTUORI, 2013[17])

6.     Justificando o injustificável

O futebol brasileiro já não é mais o mesmo. Há cerca de 20anos, quando comecei a acompanhar o esporte com frequência, a escola brasileira era temida, o futebol arte era reconhecido mundialmente como unanimidade. Hoje, o que se vê é um jogo defensivo, preocupado exclusivamente com o resultado final.

Se o time ganhou, pra quê jogar bem? A mentalidade de muitos treinadores hoje em dia passa por essa vertente. A Espanha, que carregou durante muitos anos o bordão ‘jogamos como nunca, perdemos como sempre’, é a nova sensação futebolística. Com toques rápidos e mantendo a posse de bola, os espanhóis envolvem seus adversários com paciência, até chegar ao gol.

Vale lembrar que a Espanha começou sua saga vencedora em 2008, quando ganhou a Eurocopa daquele ano. Em seguida, mais precisamente em 2010, conquistou sua primeira Copa do Mundo e, em 2012, levou a Euro novamente.

O Brasil possui cinco conquistas de Copas (1958, 1962, 1970, 1994, 2002). O único título em que a forma de jogar foi contestada pelos amantes do futebol e pela imprensa foi o de 1994, que teve o baixinho Romário como destaque. Com a segurança da marcação dos volantes Mauro Silva e Dunga, o time foi rotulado de diversas formas, como equipe que só marcava e jogava no contra-ataque, por exemplo.

Os dirigentes devem trabalhar em conjunto com as comissões técnicas, para que, novamente, o futebol pentacampeão seja uma potência mundial. A Copa de 2014 será realizada no Brasil e, como seleção anfitriã, a cobrança vai ser dura.

Para se ter uma ideia, em 2011, a revista francesa France Football, considerada a maior do mundo no ramo e que elege o melhor jogador em atividade nos campos europeus todos os anos, decretou: “The Soccer Brazilian is Death”, o que podemos traduzir como ‘A morte do futebol brasileiro’.

Com este estudo, pretendo contribuir para o entendimento da atual falência do futebol brasileiro dentro e fora de campo, e descobrir os motivos da queda na qualidade do jogo praticado atualmente.

7.     O que é o novo ‘futebol arte’?

Com esse artigo, podemos concluir que, atualmente, o jogo praticado pela seleção da Espanha, com toques rápidos, de primeira e sem muitos dribles, é o que os apaixonados pelo esporte consideram como o ‘novo futebol arte’. A magia da ginga, do drible, não tem mais tanto valor.

A base da seleção espanhola atua no Barcelona, clube que, hoje em dia, é o adversário a ser batido por todos os times do mundo. Porém, aliado a tudo que foi escrito no parágrafo anterior, está inserido um jogador que faz a diferença: o argentino Lionel Messi. Com um jeito bastante peculiar de jogar, o atleta usa dribles curtos, bastante comuns no futsal, com sua velocidade e faro de gol.

Jogadores medianos, que tem apenas bom controle de bola, hoje em dia são chamados de craques. No Brasil, o problema passa pela fraca safra de atletas em conjunto com a cultura de insegurança que os dirigentes pregam aos treinadores. Se um time fica três jogos sem vencer, o técnico é imediatamente demitido.

Com isso, preferem adotar um estilo de jogo mais cautelo, para garantir a vitória e, consequentemente, o emprego, ao invés de ensinar aos seus comandados um jeito bonito de atuar.

1] – Chapéu: drible em que um jogador joga a bola por cima da cabeça do adversário.

[2] – Rolinho: quando um atleta joga a bola entre as pernas do oponente, essa ação é chamada de rolinho.

[3] – Drible da Vaca: drible em que o jogador joga a bola de um lado do adversário e a pega do outro.

[4] – Juca Fouri é jornalista esportivo e atua em grandes veículos de comunicação da imprensa brasileira, como ESPN, UOL, entre outros.

[5] – Comentário de Juca Kfouri em seu blog mantido no portal UOL, que discute a qualidade da seleção brasileira de 1958.

[6] – Em entrevista ao site da FIFA, Iniesta ressalta a força do Barcelona, clube da Espanha, onde atua.

[7] – Juca Kfouri afirma que a qualidade da Espanha na final da Euro Copa de 2012, disputada contra a Itália, era muito superior.

[8] – O jornalista Paulo Vinícius Coelho comenta que, na mesma partida, o placarremete a uma ilusão, pois, segundo sua análise, a Itália jogou bem, mas não foi capaz de superar o time espanhol.

[9] – O técnico Telê Santana analisou positivamente o momento do futebol brasileiro em 1993, em entrevista dada ao jornal da Dragões da Real, torcida uniformizada do São Paulo Futebol Clube.

[10] – Fernando Calazans, jornalista esportivo bastante respeitado no Brasil, em artigo publicado na Internet, e intitulado ‘Olhos Bem Abertos’, faz uma crítica aos jogadores violentos e também aos técnicos e dirigentes de clubes.

[11]  – Há 3 anos seguidos no Corinthians e fazendo um bom trabalho, o técnico Tive disse ao site IG que pretende permanecer no cargo e, com isso, fazer história no futebol brasileiro.

[12] – Em seu blog, o jornalista Leandro Quesada afirma que a vida pessoal de Neymar atrai a atenção do público.

[13]  – Autora do livro INFOtenimento – Informação + Entretenimento no Jornalismo, Fabia Angelica Dejavitte acredita que esse tipo de conduta presta um serviço à população.

[14] – Em seu artigo postado no site Observatório da Imprensa, em junho de 2010, o jornalista Luis Peazê faz duras observações sobre a conduta dos jornalistas esportivos e apresenta alguns fatos, como a busca pela audiência, por exemplo, para descrever a falta de ética aos profissionais do ramo.

[15] – No livro A Magia da Camisa 10, de André Ribeiro e Vladir Lemos, da Verus Editora, de 2006, páginas 68 e 69, Zico diz aos escritores que descobriu que tinha talento para pensar o jogo e não precisava ser forte ou rápido demais em campo.

[16]  – Em entrevista publicada no blog do jornalista Marcus Alves, o treinador Pep Guardiola critica a exposição de Neymar na mídia e o compara com Messi que, segundo o técnico, é o melhor jogador do mundo e se mantém discreto.

[17]  – O treinador Paulo Autuori fez severas críticas ao momento ultrapassado pelo futebol brasileiro. A matéria foi publicada no jornal O Globo e também no blog do jornalista Juca Kfouri.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CUNHA, Fabio A. Técnico de Futebol: A arte de comandar. Rio de Janeiro: Prestígio. 2010.

PIVETTI, Bruno. Periodização Tática: O futebol arte alicerçado em critérios. São Paulo: Phorte Editora. 2012.

SOUZA, Jair; RITO, Lucia; LEITÃO, Sérgio S. Futebol Arte: A cultura e o jeito brasileiro de jogar. São Paulo. Senac. 1998.

1 – Chapéu: O jogador projeta a bola por cima de seu oponente e a retoma sem que ela caia no chão. Dicionário ‘futebolês’: desvendando o nome dos dribles. Disponível em http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/esporte/2009/09/24/221825-dicionario-futeboles-desvendando-o-nome-dos-dribles, acessado em 16/03/2013.

2 – Rolinho: Ocorre quando o jogador consegue passar a bola por entre as pernas de um adversário, recuperando-a logo depois. Dicionário ‘futebolês’: desvendando o nome dos dribles. Disponível em http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/esporte/2009/09/24/221825-dicionario-futeboles-desvendando-o-nome-dos-dribles, acessado em 16/03/2013.

3 – Drible da Vaca: Quando o jogador lança a bola por um lado do adversário e a recupera do outro. Dicionário ‘futebolês’: desvendando o nome dos dribles. Disponível em http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/esporte/2009/09/24/221825-dicionario-futeboles-desvendando-o-nome-dos-dribles, acessado em 16/03/2013.

4 – KFOURI, Juca. Arte X Força: a volta da velha discussão. Disponível em http://blogdojuca.uol.com.br/2012/05/arte-x-forca-a-volta-da-velha-discussao/, acessado em 31/07/12.

5 – KFOURI, Juca. A seleção de 1958 foi a melhor? Disponível em http://esporte.uol.com.br/futebol/copa58/enquete/, acessado em 31/07/12.

6 – INIESTA, Andrés. Iniesta: O Barça é melhor com Messi e o Messi é melhor com o Barça. Disponivel em http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-espanhol/noticia/2013/02/iniesta-barca-e-melhor-com-messi-e-o-messi-e-melhor-com-o-barca.html, acessado em 16/03/2013.

7 – KFOURI, Juca. Espanha Cada Vez Mais Chata. Disponível em http://blogdojuca.uol.com.br/2012/07/espanha-cada-vez-mais-chata/, acessado em 25/07/12.

8 – COELHO, Paulo Vinícius. No Bate- Bola, PVC analisa conquista da Espanha e destaca importância da lesão de Thiago Motta. Disponível em http://espn.estadao.com.br/video/266191_no-bate-bola-pvc-analisa-conquista-da-espanha-e-destaca-importancia-da-lesao-de-thiago-motta, acessado em 25/07/12.

9 – SANTANA, Telê. Histórico: Dragões entrevista Mestre Telê em 1993. Disponível em http://dragoesdareal.com.br/site3/index.php?option=com_content&view=article&id=16:historico-dragoes-entrevista-mestre-tele-santana&catid=6:reportagens-especiais&Itemid=8, acessado em 28/03/13.

10 – CALAZANS, Fernando. Olhos Bem Abertos. Disponível em http://www.interjornal.com.br/noticia.kmf?cod=13642246,acessado em 31/07/12.

11 – TITE. Com gratidão a Andrés, Tite revela desejo de permanecer no Corinthians. Disponível em http://esporte.ig.com.br/futebol/2013-03-25/com-gratidao-a-andres-tite-revela-desejo-de-permanecer-no-corinthians.html, acessado em 28/03/13.

12 – QUESADA, Leandro. Muricy: “Deixa o Neymar namorar”. Disponível em http://blogdoquesada.blogosfera.uol.com.br/2013/03/23/muricy-deixa-o-neymar-namorar/, acessado em 28/03/13.

13 – DEJAVITTE, Fabia Angelica. INFOtenimento – Informação + Entretenimento no Jornalismo. São Paulo. Paulinas. 2006.

14 – PEAZÊ, Luis. Ética no Jornalismo Esportivo Brasileiro. Disponível em http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/etica-no-jornalismo-esportivo-brasileiro, acessado em 16/03/2013.

15 – RIBEIRO, André; LEMOS,Vladir. A Magia da Camisa 10. São Paulo.Verus Editora. 2006. Páginas 68 e 68.

16 – GUARDIOLA, Pep. Em biografia, Guardiola critica marketing em torno de Neymar. Disponível em http://trivela.uol.com.br/blog/marcusalves/em-biografia-guardiola-compara-neymar-a-messi/, acessado em 28/03/13.

17 – AUTUORI, Paulo. Paulo Autuori: “Nossos treinadores ficaram para trás”. O técnico Paulo Autuori fez várias citações negativas sobre o atual momento pelo qual passa o futebol brasileiro no blog do jornalista Juca Kfouri. Disponível em http://blogdojuca.uol.com.br/2013/04/paulo-autuori-nossos-treinadores-ficaram-para-tras/, acessado em 15/04/13.

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Sobre Guilherme Derrico

Jornalista, músico e viciado em esportes. Sejam todos bem-vindos ao mundo de Derrico. Um abraço!
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