Dia dos namorados: como o cérebro vivencia a paixão?

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Talvez uma das maiores injustiças já cometidas contra um órgão do corpo foi dar o mérito da paixão para o coração. Os antigos, diante da taquicardia e ansiedade causada pela presença da pessoa amada, atribuíram ao coração uma função que é estritamente cerebral. Hoje em dia, ninguém dá uma almofada em formado de hipotálamo para a namorada, nem desenha lobos frontais em uma cartinha apaixonada, o pobre coitado do cérebro pagará eternamente por esse equívoco histórico.

Agora, seria a paixão um evento bioquímico? Parece que, em grande parte, sim. “Nosso cérebro criou, durante a evolução, tantos mecanismos de recompensa para encontro de um parceiro reprodutivo que passamos a ficar viciados nele. Isso porque vício e paixão são faces do mesmo processo. Nosso cérebro possui, em suas profundezas, um sistema que sinaliza que fizemos algo bom para o indivíduo e/ou para a espécie. Quando isso ocorre sentimos prazer, que pode ser imediato, agudo, avassalador ou mais arrastado e crônico”, explica o neurologista Leandro Teles.

Quando comemos coisas calóricas, o sistema é ativado, e quando fazemos sexo, o sistema se ativa outra vez. Isso também ocorre (de forma patológica) no uso de drogas e em muitas outras situações mais corriqueiras. O neurotransmissor mais relacionado a esse sistema de recompensa é a Dopamina. “O processo de conquista exige que associemos nossa presença a eventos positivos. Para conquistar alguém tentamos ser educados, engraçados, saímos para comer, somos tolerantes, pacientes, nos arrumamos e tal. Tudo isso funciona como um condicionamento cerebral, um reforço positivo no cérebro da outra pessoa. Desse processo de apego participam muito o tronco cerebral, os lobos temporais e os lobos frontais”, afirma Teles.

O problema é que o sistema traz um efeito colateral rebote: a ausência da pessoa gera um vazio, uma abstinência que chamamos de saudade. Antes de conhecer a pessoa ela não fazia tanta falta, mas agora parece que a graça das coisas só existe com o outro. A saudade é o primeiro efeito colateral da paixão, mas não é o único. Em muitos casos podem surgir o sentimento de posse, o ciúme, a compulsão, entre outros. “O processo cerebral da dopamina e da adrenalina (outro neurotransmissor em ebulição nos apaixonados) alimentam a relação por um tempo variado, mas não para sempre. Por questões biológicas (instintivas), por eventos do dia a dia, pela rotina, pelo aparecimento de alguns defeitinhos maquiados nos primeiros meses, enfim, por tudo isso o processo da paixão se abranda”, ressalta o neurologista.

Após essa fase, muitos casais se separam, mas alguns evoluem para outra forma peculiar de relação, pautada em um bem estar crônico, menos intenso, uma simbiose aonde ganham os dois no convívio, em um comprometimento mútuo de cuidado, respeito e admiração. Esse estado tem lá sua dopamina e sua adrenalina eventualmente, mas não é mais dependente e alimentado por eles. O amor é esse estado mais complexo e tecnicamente mais duradouro. Ele vive mais de serotonina (neurotransmissor do bem-estar), das memórias adquiridas, dos comportamentos nas fases mais difíceis, é de percepção e certeza bem mais suave, inconstante e tem na sua sutileza seu maior mérito e inimigo.

Como podemos ver, a paixão é um processo neurobiológico agudo e complexo. E, por não depender de apenas um cérebro, ainda é fadada a assimetria de percepções e entrega. É a fascinante porta cerebral de entrada tanto para o processo de amadurecimento das relações interpessoais como para os fracassos e as frustrações amorosas.

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Sobre Guilherme Derrico

Jornalista, músico e viciado em esportes. Sejam todos bem-vindos ao mundo de Derrico. Um abraço!
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