Quem sabe um dia…

Quem sabe um dia, João entenda o real motivo de ter nascido, de ainda estar vivo, de fazer parte do mundo. As incompreensões são muitas, as perguntas sem respostas, também. A inquietude de quem não entende certas coisas, certas atitudes, certas pessoas. Ele queria ter tido uma vida normal, com pais amáveis, família unida, amigos confiáveis, relacionamentos felizes, situações que nunca fizeram parte do seu contexto.

Hoje, aos 34 anos, João é um adulto fracassado. Sim, fracassado! É duro assumir a derrota, ainda mais nos tempos de hoje, em que as redes sociais são verdadeiras vitrines da falsidade. Sim, falsidade, pois ninguém dorme e acorda sorrindo, com o cabelo arrumado, a maquiagem retocada, as poses, os flashes, tudo é uma ilusão, mentira da mais alta patente.

A profissão escolhida não lhe traz satisfação, nem ao mínimo garante seu sustento por um ano consecutivo sequer. João está sempre pulando de galho em galho, de empresa em empresa, de demissão em demissão. As paixões? Ah, as paixões! Quando mais novo, ele acreditava que tudo seria para sempre. Que os namoros virariam noivados, que os noivados virariam casamentos, que os casamentos seriam eternos.

Porém, logo cedo, ao conviver em meio à relação turbulenta de seus pais, João percebeu que aquilo tudo era uma grande farsa, algo que é imposto pela sociedade, entretanto, que está com os dias e horas vencidas, saiu de moda.

O tempo passou e João se tornou um jornalista, um estudioso, um músico, um atleta amador. Quanta coisa! Então, o rapaz é realizado, certo? Errado! Dentro de si, João carrega a angústia de uma vida toda, uma vontade de falar, de ouvir, de ser ouvido, de compreender, de ser compreendido. Isso nunca vai acontecer e João vai morrer calado. Uma pena, pois, no fundo, ele sabe que tem muita coisa para passar adiante.

Talvez, quando estiver à beira da morte, as pessoas saibam quem ele realmente foi. Ou até o próprio João tenha a mais valiosa das respostas: entender o que o trouxe até esse mundo cão.

E segue a música: “Tristeza rolou nos meus olhos, do jeito que eu não queria. E invadiu meu coração, que tamanha covardia”…

Sobre Guilherme Derrico

Jornalista, músico e viciado em esportes. Sejam todos bem-vindos ao mundo de Derrico. Um abraço!
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